No dia 6 de agosto, um “youtuber” chamado Felca, com pouco mais de 6 milhões de seguidores, do qual nunca tinha ouvido falar, (Confesso; meu conhecimento sobre “youtubers” é escasso!) movimentou jornais, sites jornalísticos, grupos de discussões e até o Congresso Nacional, em um vídeo de 50 minutos divulgado na plataforma do Youtube.
O vídeo relata sobre a adultização de crianças nas redes sociais. E, ao final, Felca demonstra como esse cenário é perfeito para a ação de pedófilos. A denúncia foi contra pais, adultos, plataformas e, principalmente, contra a lógica perversa que transforma a vida dessas crianças em mercadoria.
Contudo, o ponto do vídeo que quero destacar aqui é a exploração do corpo de meninAs; presas fáceis a atrair “curtidas”, “visualizações”, “likes”. E já informo, caso ache a prática recente, certamente você tem menos de 30 anos. Aqueles um pouco mais velhos lembram bem da febre das apresentadoras infantis, dos programas de auditório recheados de crianças, das chacretes, paquitas, malandrinhas. Redes sociais é a versão atualizada dessa comercialização. Obviamente, com alcance mais acelerado e cruel.
Essa exploração do corpo feminino continua na fase adulta, ou enquanto esse corpo puder ser caracterizado como “jovem”. O corpo entretém. É apresentado como um produto a ser consumido, explorado, usado e, certamente, descartado quando não serve mais ao grande público.
Esse tipo de exposição constrói mais do que uma imagem. Constrói uma identidade. Ensina, desde cedo, que ser mulher é estar disponível. Que ser vista vale mais do que ser ouvida. Que o seu valor está na aparência, não na ideia. E o pior: essa lógica vai se espalhando silenciosamente por todas as esferas de uma sociedade. Afinal, se o corpo da mulher é um produto, então também pode ser dispensado "sem justa causa" porque engravidou. Pode ser exposto a subempregos. E, também, pode ser agredido, silenciado — morto.
Meninas que crescem e permanecem nesse ambiente - mesmo já adultas - conseguirão sonhar em ser líderes, políticas, médicas, cientistas? Como exigir autoestima, ambição, protagonismo, se seguimos valorizando e monetizando predominantemente seus corpos?
A pouco tempo vi uma iniciativa de um município voltada à qualificação da mulher no mercado. O título parecia promissor. Mas, ao ver os cursos oferecidos — bordado, artesanato, costura —longe de mim criticar quem vive desses trabalhos, mas a pergunta que faço é por que não cursos de mecânica? De elétrica? De programação? De auxiliar contábil?
Afinal, qual lugar incentivamos nossas meninas e mulheres a ocuparem amanhã?
Porque não é só sobre o que está nas redes, nas câmeras ou TV. É sobre o que a escola ensina, o que o mercado oferece, o que o Estado incentiva, o que pais e mães educam. É sobre quais portas abrimos e quais trancamos.